sexta-feira, 20 de novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Voz de Outono




Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- «Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalar, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e turba vária,

(Sem ser uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor… que ter sonhado
Os sonhos ideias que tu sonhaste!»


Antero de Quental, in Sonetos

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Longos Dias Têm Cem Anos



A sala onde a Sophia recebia as visitas tinha uma lareira, e era diante da lareira que nos reuníamos. Creio que era no Verão, e o Castelo de S. Jorge estava iluminado. Maria Helena e Arpad tinham uma casa nas Amoreiras, e, nesse tempo, as Amoreiras eram assim como Salon, na Provença, com respeitáveis árvores de ar ligeiramente canibal; as raízes rebenta­vam os passeios como se fossem proceder a um abraço esmagador da pacata cidade. Mais tarde, Maria Helena disse-me que pensara ir viver para Salon, que é a corruptela de Shalon e que, assim, sugere paz e a mais cordial simpatia provençal. Mas, a mim, Salon parecia só um lugar com grandes plátanos, como disse, capazes de devorar uma praceta com a sua épi­cerie e as velhotas azedas que morrem de tédio entre o pâté de canard e a renda vitalícia.



Íamos nisso do meu primeiro encontro com o Arpad e a Maria Helena. Arpad disse que estavam ali as três mulheres de mais talento em Portugal, e, por sorte, ninguém mais o ouviu senão nós três. Ele sabia que não ia acender rivalidades porque tínhamos dife­rentes artes. Modalidades, como se diz no Porto. O Carlos Carneiro, que era um snob com muita fantasia para agourar o mau gosto burguês, dizia que um dia o chamou um pedante tímido, que os há nas faustas ruas da cidade, e lhe confessou: «Eu também me dedico à modalidade». E deu em mostrar-lhe horrendas aguarelas, marinhas e não sei que mais. Pois nós não nos acotovelávamos na modalidade. Maria Helena pintava, eu escrevia romances, a Sophia fazia poesia— e assim continuamos dentro do território demarcado, sorrindo, aplaudindo e permitindo ao génio a cumplicidade em que a emulação não mete o dente. A Sophia era um caso — uma mulher que tem a cortesia de parecer vulnerável. Eu era um caso — incerteza apaixonada. Vieira era um caso — uma mulher justa, o que é extraordinário e incalculável. Por exemplo: eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência; o facto de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.

Agustina Bessa-Luís,

"Longos Dias Têm Cem Anos - Presença de Vieira da Silva", 1982

domingo, 26 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009